Uma das viagens em família que eu lembro, que foi das mais doidas, foi uma com minha prima e meu último marido.... e as quatro crianças felinas no carro. A novidade era a Nina, que recolhemos grávida mas já tinha tido os filhotes, os quais já tinham sido doados. Nina não tinha lá muitos bons hábitos de higiene, era meio fedida e ladra. Mas ainda assim, era bonita, marmorizada e com aquele delineador nos olhos que deixa qualquer uma irresistível. Veio com a gente praquele passeio porque também era da família, ora bolas, e sempre viajávamos juntos.
Deixamos a galera naquele jejum pós viagem que todo mundo estava acostumado. Acordamos cedo e pé na estrada. Uma hora e meia depois, um fedor indescritível toma conta do automóvel. Alguém tinha cagado, isto era fato consumado e inalado. Paramos e fomos tentar descobrir o autor. No caso, a autora: Nina, que nos olhava com aquela expressão que só faltava cantar "não sei , desconheço, isso nasceu aí!"
Limpamos e seguimos adiante, até felizes que não haveria mais o que defecar na pior parte do trajeto, que era a serra, onde não havia acostamento. Passamos no ponto de parada de sempre, revisamos o carro, a felinada e toca subir.
Curva vai, curva vem e o negócio ficando cada vez mais parecido com um tango automotivo. Deu meia hora de serra, povo quase feliz e de repente, um fedor medonho. Não podia ser um pum. Para ser um flato, seria necessário que a pessoa tivesse comido feijoada em lata com repolho e ovo e bebido Caracu. Ou havia um zumbi peidorreiro escondido no carro, qualquer um dos dois. Teria que ser algo sobrenatural.
Não havia meio de parar e o carro jogava. Ouviam-se miados sofridos, minha prima ficando verde no banco de trás, apenas frestas de janelas abertas - questão de segurança, vai que - e o bagulho cada vez mais louco. Eu tinha dúvida se era melhor ir mais devagar e jogar menos ou aflorar o Fangio que dormia em mim e acabar com aquela agonia.
-Mô, pisa fundo, peloamordedeus!
Marido decidiu por todos e lá fui eu, nas curvas da estrada que nem em filme da Jovem Guarda. Não satisfeita, passei pelo posto da PM e no quebra molas e em todos dali pra frente, pulou o transporte onde Nina viajava com Pêta e Fuzzy. Eu via as patinhas pra lá e pra cá, como se fossem de crianças felizes brincando num pula pula....de merda. Literalmente.
Quando paramos o carro ao chegar à casa e eu destravei as portas, minha prima jogou-se no chão, sofrendo em plena agonia nasal e cerebral. Foi demais pros sensores olfativos no cérebro dela e desconfiamos até hoje que seus hábitos de higiene mudaram após esse evento, por absoluta incapacidade de sentir cheiros. Passado o espetáculo dantesco de minha prima, fomos abrir a mala para ver como estava a situação e lá estavam as três.
Nina estava imaculada, como se a própria bosta a ela não aderisse. Pêta estava de cocô até o pescoço e Fuzzy completamente imunda, só se viam os olhos. Meu marido não conversou, furioso como ficou, pegou Nina e deu-lhe um banho frio, naquele inverno da serra. Secou de má vontade e nas outras meninas usou água morna e secador. Nina já estava restabelecida do banho gelado quando Pêta e Fuzzy, já secas e cheirosas, a cercaram na sala.
- Monhoooimnhoimnhoiiiimmmm!* (trad livre: - Agora caga, desgraçada!)
Fizemos ouvido surdo aos clamores de Nina. Só quem estava atolado na merda até a cabeça sabe o quanto deve bater em quem o atolou. Daquele dia em diante, Nina sempre viajou sozinha em cabine própria. Estranhamente, continuou passando seus faxes para Boston durante as viagens, sempre mais ou menos no mesmo trecho, mesmo não tendo material para o fax, não importa o jejum. Devia esconder em algum recôndito dos intestinos.