Pois é. As mães que são do Rio já sabem, as que não são já devem ter visto no repórter esso da noite - sim, sou das antigas - que a cidade está de pernas pro ar. Bom, se ainda tivesse pernas.
Quando ainda andava de carro no Rio, já não levava mais meus filhos pra lugar nenhum. Viajar, de carro nem pensar. E se tivesse que ir ao Galeão e passar por Linha Amarela, contava com o apoio de um amigo, que tem o carro blindado. E rezava mesmo assim.
Frescura? Não. Faz tempo que o Rio de Janeiro virou Rio de Janeura. Apenas um por cento da cidade ainda presta, o resto é favela, poluição e violência. É muito triste ver o Estácio, onde me criei quando criança, e a Tijuca, pra onde fui maiorzinha, terem sua noite embalada ao som de tiros. Ver as ruas sujas. Restaurantes fechando, cinemas virando igrejas e drogarias. Lojas que precisam pagar segurança ou falir, porque não conseguem paz. E por favor, me poupem da cantilena do em todo lugar está assim. Desculpem, não está. Em Vienna não está, em Lisboa não está, em Oslo não está. E se está em outro lugar, quero que o outro lugar se lixe, não vou me espelhar em exemplo que não presta. Queria o melhor AQUI!
Uma mãe certa vez me escreveu pra desabafar da filha que foi baleada na janela. Gostava de dormir ali apoiada na tela e levou uma bala perdida. Não morreu por pouco e essa mãe vendeu o apartamento, pela metade do preço. Mas ir pra onde? Já não há muito pra onde ir.
Muitos falam da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes. Mas além dos preços altíssimos, a qualidade de vida pra quem trabalha fora dali - e hoje em dia, mesmo ali, porque os engarrafamentos são absurdos - é zero. Gente que precisa pegar no batente ás nove da manhã precisa sair às seis e meia se for de ônibus comum e às sete se for no ônibus do condomínio. Mas vão passar pela Rocinha,
pelo Vidigal, alguns pelo Borel e outros. Na hora de voltar, se saírem às seis do Centro, chegarão às oito da noite na Barra, isso com trânsito mais ou menos! Isso é vida? Pagar fortuna pra isso? Sair de casa às sete da manhã e voltar às oito da noite? Fora o risco de tiroteio no caminho, de arrastões, que está sempre no jornal! Fora que sem carro não existem esses bairros, porque não há infraestrutura de transporte. Fora o esgoto com tratamento precário. Fora a segurança, se não for paga, inexiste. E dizem que com os Jogos e Copa, as coisas vão melhorar.
pelo Vidigal, alguns pelo Borel e outros. Na hora de voltar, se saírem às seis do Centro, chegarão às oito da noite na Barra, isso com trânsito mais ou menos! Isso é vida? Pagar fortuna pra isso? Sair de casa às sete da manhã e voltar às oito da noite? Fora o risco de tiroteio no caminho, de arrastões, que está sempre no jornal! Fora que sem carro não existem esses bairros, porque não há infraestrutura de transporte. Fora o esgoto com tratamento precário. Fora a segurança, se não for paga, inexiste. E dizem que com os Jogos e Copa, as coisas vão melhorar. Sinto, duvido. O Rio chegou a um ponto sem retorno. Sem escolas decentes, hospitais que prestem, saneamento e política de habitação e transporte séria, essa cidade vai cada vez mais ladeira abaixo. Obra faz maquiagem bonita no cadáver, mas ele vai continuar morto e apodrecer depois que os parentes saírem do velório e o enterrarem.
Enquanto isso nós, mães cariocas, temos que nos precaver: cuidado nas janelas, cuidado ao sair, cuidado no quintal, cuidar no carro se formos assaltadas e levarem nossos filhos (porque eles matam ou jogam na estrada) , cuidar no ônibus se bandidos entrarem e resolverem fazer mais maldade. Andar em alerta o tempo todo, como nos tempos no início da segunda guerra.
Falei em guerra?
É. Falei. Mas isso já tem tempo.



