terça-feira, 23 de novembro de 2010

Rio de Janeiro, Bagdá.

Pois é. As mães que são do Rio já sabem, as que não são já devem ter visto no repórter esso da noite - sim, sou das antigas - que a  cidade está de pernas pro ar. Bom, se ainda tivesse pernas.

Quando ainda andava de carro no Rio, já não levava mais meus filhos pra lugar nenhum. Viajar, de carro nem pensar. E se tivesse que ir ao Galeão e passar por Linha Amarela, contava com o apoio de um amigo, que tem o carro blindado. E rezava mesmo assim.

Frescura? Não. Faz tempo que o Rio de Janeiro virou Rio de Janeura. Apenas um por cento da cidade ainda presta, o resto é favela, poluição e violência. É muito triste ver o Estácio, onde me criei quando criança, e a Tijuca, pra onde fui maiorzinha, terem sua noite embalada ao som de tiros. Ver as ruas sujas. Restaurantes fechando, cinemas virando igrejas e drogarias. Lojas que precisam pagar segurança ou falir, porque não conseguem paz. E por favor, me poupem da cantilena do em todo lugar está assim. Desculpem, não está. Em Vienna não está, em Lisboa não está, em Oslo não está. E se está em outro lugar, quero que o outro lugar se lixe, não vou me espelhar em exemplo que não presta. Queria o melhor AQUI!

Uma mãe certa vez me escreveu pra desabafar da filha que foi baleada na janela. Gostava de dormir ali apoiada na tela e levou uma bala perdida. Não morreu por pouco e essa mãe vendeu o apartamento, pela metade do preço. Mas ir pra onde? Já não há muito pra onde ir.

Muitos falam da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes. Mas além dos preços altíssimos, a qualidade de vida pra quem trabalha fora dali - e hoje em dia, mesmo ali, porque os engarrafamentos são absurdos - é zero. Gente que precisa pegar no batente ás nove da manhã precisa sair às seis e meia se for de ônibus comum e às sete se for no ônibus do condomínio. Mas vão passar pela Rocinha, pelo Vidigal, alguns pelo Borel e outros. Na hora de voltar, se saírem às seis do Centro, chegarão às oito da noite na Barra, isso com trânsito mais ou menos! Isso é vida? Pagar fortuna pra isso? Sair de casa às sete da manhã e voltar às oito da noite? Fora o risco de tiroteio no caminho, de arrastões, que está sempre no jornal! Fora que sem carro não existem esses bairros, porque não há infraestrutura de transporte. Fora o esgoto com tratamento precário. Fora a segurança, se não for paga, inexiste. E dizem que com os Jogos e Copa, as coisas vão melhorar. 

Sinto, duvido. O Rio chegou a um ponto sem retorno. Sem escolas decentes, hospitais que prestem, saneamento e política de habitação e transporte séria, essa cidade vai cada vez mais ladeira abaixo. Obra faz maquiagem bonita no cadáver, mas ele vai continuar morto e apodrecer depois que os parentes saírem do velório e o enterrarem.

Enquanto isso nós, mães cariocas, temos que nos precaver: cuidado nas janelas, cuidado ao sair, cuidado no quintal, cuidar no carro se formos assaltadas  e levarem nossos filhos (porque eles matam ou jogam na estrada) , cuidar no ônibus se bandidos entrarem e resolverem fazer mais maldade. Andar em alerta o tempo todo, como nos tempos no início da segunda guerra.

Falei em guerra?

É. Falei. Mas isso já tem tempo.

13 comentários:

gatolandia.com.br disse...

É por isso que eu abandonei o Rio, onde nasci e vivi a maior parte da minha vida. Vivo hoje no interior e não me arrependo, a qualidade de vida é muito melhor. Jamais conseguiria viver numa cidade dessas novamente, nessa paranoia constante. O Rio agora eu só visito de passagem, e ainda assim muito raramente...

Ronrons e Travessuras disse...

Muito lúcidas suas considerações, e tristes também... muito tristes.

Ao revés da música, o Rio de Janeiro não continua lindo: está enfeiando a cada dia e quem sofre somos nós, cidadãos, brasileiros.

Ms. Anabela disse...

Mas dá tristeza, não tem jeito. Como um colar bonito, jóia de família, que dão pra criança ralar no chão e acabar com ele, pq não sabe o valor que tem.

:-(

A Paraíso disse...

Fiquei impressionada com a vossa descrição! Têm surgido imagens cá nas noticias e sabemos que o Rio anda perigoso, mas ser preciso andar de carro blindado?!
Nós notamos que Portugal anda mais inseguro, e realmente anda, mas nada assim, são mais os carteiristas, carros assaltados (o meu antigo foi 2 vezes porque é dos mais fáceis de abrir) e começa-se a ver com mais frequência assaltos a casas (infelizmente aconteceu à casa dos meus pais, mas estava fechada só no trinco, só depois disso começaram a trancar à chave!).
Corrijam-me se tiver enganada, mas tenho a ideia de que a violência aí no Brasil é mais banal, ou seja, aqui se alguém é morto num assalto é polémico, é discutido, mas tenho a sensação de que aí é diário. Estou errada? Nós cá vemos filmes como a Cidade de Deus e a Tropa de Elite (vocês têm um cinema brutalmente bom!!!) e parece que é uma realidade paralela!

ReCriando disse...

É triste sim... mais triste é me lembrar de políticos como Brizola e cia que, nas suas políticas paternalistas, permitiam a construção de mais e mais favelas. E não estou falando de notícia de jornal não. Eu vi! Na minha frente! Mais precisamente, nos fundos do prédio onde eu cresci... Sr Brizola e outros calhordas, negociando a favelização... E hoje o bairro em que eu fui feliz virou uma enorme e horrível favela... É o favela bairro nas áreas de risco (oi? Não é área de risco? Então NÃO TEM QUE TER NADA LÁ!)... é o bolsa sei lá o que atraindo mais e mais gente para a cidade e super lotando tudo. São os sem-emprego, sem-vergonha, sem-caráter crescendo por todos os lados...

Alice disse...

Concordo plenamente com tudo o que você falou. Acho que o governo perdeu o controle (se é que um dia teve) sobre o crime organizado. Vejo o Rio vivendo um momento de terror. Não se busca uma vida melhor, com qualidade e segurança, para todos, com saúde, cultura, emprego. É a luta pela perpetuação do crime, da corrupção, do tráfico. É a perpetuação do poder pelo "poder" que ele trás. Espero que algum de nossos representantes parem de fazer "política barata" com essa situação e tomem atitudes firmes, sérias e coerentes para que o Rio volte a ser a Cidade Maravilhosa.

Ms. Anabela disse...

Alooouu, minha terra! Saudades!! :) - E aí, menina, como estás? Pois, aqui é banal. Pra piorar, o carioca acha que o Rio é a Cidade Maravilhosa mesmo assim, que todo mundo tem problema, etc, etc. Ou seja, a tendência é só piorar, pq aqui mora o povo mais LENIENTE que já vi. É mesmo uma pena. Os portugueses, ficamos chateados e reclamamos, dizemos que Portugal está um horror, mas aqui é dizer que tem a praia, o Flamengo e que isso justifica qualquer coisa.

Rê - no bairro dos meus pais, as bolsas fizeram o contrário, mandaram o pessoal de volta pra terra deles. Concordo que se é área de risco, tem que tirar. Se é ilegal, tem que tirar. Tanto as casas dos pobres, quanto os prédios e casas dos ricos. Aqui tudo pode,tudo é possível. Precisa mudar, mas pra isso tem que mudar o carioca.
Ou seja.... ¬¬

Alice - a mudança tem que vir do povo, continuo te dizendo. O governo é reflexo do povo, é votado por ele, cobrado por ele, etc, etc. Lembro de um chefe da Civil (Luis Eduardo Soares) dizendo que o carioca NÃO QUER uma polícia que funcione, pq o dia que isso acontecer, acabou o jeitinho, acabou a liberação em blitz, acabou esse lance de soltar o filho arruaceiro que criou problema em boate. E Soares tinha e tem razão!

Beijos a todas!!!!

A Paraíso disse...

Pois, hoje voltou a dar nas noticias a situação do Rio de Janeiro e como agora estou mais atenta (influência aqui do blog!), tenho seguido com mais atenção!
Aqui reclamamos, é verdade, mas faz parte da cultura também, estamos sempre a queixar, mesmo quando não há razão!
No entanto, tenho amigos meus a ir para o Brasil porque aqui não conseguem emprego, parece que o país estagnou com a crise, e para quem é novo e da área da construção (engenheiros e arquitectos)aqui está mau e avizinha-se pior!
Já agora, uma questão, eu tenho a ideia de que aí existem muitas crianças envolvidas no mundo da violência e a viver na rua(pelos filmes, novelas e pelo "Capitães da Areia" do Jorge Amado), mas é real?
Cada vez gosto mais deste blog, aprendo tanto!

Daniela Tórgo disse...

Minha mãe esta indo para Rio no sádado estou apavorada!!!!O irmão dela que mora lá não está muito bem e ela insiste em ir agora. Ele mora em uma praia de Niteroi mas de qaulquer forma ela vai ter chegar pelo aeroporto e voltar por ele!! bjs

Ms. Anabela disse...

Ô minha conterrânea! Veja bem pra onde estão indo seus amigos. Canadá é sempre melhor opção, o Sul do Brasil é mto bom, São Paulo até tem bastante emprego. Criança na rua aqui no Rio é normal. Aqui, ser mãe de filho humano dá status, como se vc tivesse se tornado um ser superior, além das que põe no mundo pra explorar mesmo. Uma porcaria... :-/

Daniela, cheguei ao Rio hj, tanque aqui e ali e muita polícia. Dá notícia da tua mãe. Beijo!

ReCriando disse...

O Rio saiu de "Cidade da Morte" para "Cidade Maravilhosa" (depois do prefeito Pereira Passos) e, convenhamos... já deixou de ser Maravilhosa tem MUITO tempo... É alienação achar que existe algo bom aqui... Futebol, bunda e carnaval? Até quando o carioca (pq eu me excluo mesmo!) vai ser tão imbecil?

Paraíso e Daniela, hoje as coisas estão menos complicas por aqui. Ao que tudo indica, a única grande favela da cidade, o Alemão (isso foi sarcasmo), foi tomada pelos militares e polícia civil. O fato é que em Acari ninguém entrou, na Rocinha idem, em Vigário Geral idem e em TODO O RESTO DA CIDADE, IDEM. Porque o Rio de Janeiro, para onde quer que se olhe, há uma favela. Infelizmente...

Então rezamos para que, desta vez, seja feita alguma coisa de fato. Esperamos que não seja mais uma ação para vender políticos e jornais... 2016 e 2014 estão aí... sabem como é...

Além disso, não é a primeira vez que esse tipo de atitude é tomada. Já tivemos exército nas ruas antes... Já vimos militares em morros...
Dentro da fevela da Maré, decretada "bairro" desde 1994, existe um batalhão da polícia militar. A Maré é uma das áreas mais perigosas da cidade... E vcs não leram errado: existe um batalhão lá dentro desde 94!
Em 2008, o Bope entrou no Complexo do Alemão, disse que não tinha prazo para sair de lá e pendurou uma bandeira no alto do morro. Vocês viram alguma cena parecida hoje? Então...
Em 13 de outubro de 1994, o jornal O Globo escreveu: “Vivendo no Rio de Janeiro, sempre se aprende alguma coisa. Recentemente, o carioca começou a adquirir uma certa competência auditiva para distinguir entre tiros de fuzil, pistola, metralhadora, escopeta e armas mais sofisticadas e mais pesadas."

Ou seja, há muito tempo convivemos com o crime. Há muito tempo as autoridades sabem onde o crime está e como combatê-lo. O que houve? Falta de vergonha na cara.

Beijos e boa semana!

Daniela Tórgo disse...

Anabela minha mãe já está esta na casa do meu tio que é em Itaquatiara em segurança, beijos

Ms. Anabela disse...

de meu Deus, vc lembrou bem! O BOPE já hasteou bandeirinha lá em 2008!

Daniela: Ufa!!!! Lembranças felinas à ela! =^.^=